Aos 80 anos, Elvira Raulino carrega uma trajetória que se confunde com parte da história social, cultural e jornalística do Piauí. Para celebrar a data, familiares, amigos, jornalistas e admiradores se reuniram nesta segunda-feira (21), no Clube dos Diários, no Centro de Teresina, em uma noite marcada por homenagens, reencontros e memórias.
A escolha do local não foi por acaso. Décadas atrás, ainda jovem, Elvira frequentava as tradicionais tertúlias dançantes realizadas no Clube dos Diários. Agora, aos 80 anos, voltou ao mesmo espaço para celebrar uma vida construída entre o jornalismo, a televisão, a política, o turismo e, sobretudo, a capacidade de romper padrões.
A festa, organizada pelas filhas Beatriz, Sanmya e Mara, reuniu pessoas que acompanharam diferentes capítulos dessa história. O encontro também resgatou o clima das antigas tertúlias, em uma celebração que teve como inspiração características que marcaram a personalidade de Elvira: fé, força, determinação, coragem e pioneirismo.
O jornalista Zózimo Tavares destacou a importância da homenagem.
“Aplaudir toda a sua trajetória e dizer o quanto ela foi, é e será importante para todos nós e amada por cada um.”
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Uma mulher à frente do seu tempo
Muito antes de se tornar uma das figuras mais conhecidas do colunismo social piauiense, Elvira já demonstrava disposição para desafiar costumes.
Aos 14 anos, começou a escrever crônicas sociais sob o pseudônimo de Beatriz. A escolha do nome artístico tinha uma razão: seus pais não permitiam que ela assinasse os textos com o próprio nome. O que começou de maneira discreta, porém, acabaria dando origem a uma das trajetórias mais marcantes do jornalismo social do estado.
A partir da década de 1960, Elvira passou a ocupar as páginas do jornal O Dia, inicialmente voltada para assuntos destinados ao público feminino. Com o tempo, consolidou seu próprio espaço e conquistou o reconhecimento que a levaria a ser chamada de “papisa do colunismo social do Piauí”.
Mas sua atuação nunca ficou restrita às páginas dos jornais.
Elvira participou de transformações nos costumes de uma sociedade ainda cercada por tabus. Usou calça comprida quando isso ainda provocava estranhamento, vestiu biquíni em uma época em que a peça era vista como ousadia e entrou em campo para jogar futebol feminino.
Na década de 1960, chegou a vestir a camisa do Altos Esporte Clube e disputar partidas. Questionada sobre sua presença em um ambiente predominantemente masculino, respondeu de maneira que sintetizava seu espírito: “Porque uma mulher pode fazer tudo, e, às vezes, muito melhor que o homem faz”.
Para a ex-governadora Regina Sousa, essas atitudes ajudam a explicar a dimensão do pioneirismo de Elvira.
“Elvira é pioneira, ela tem um pioneirismo em muitas coisas, ela revolucionou os costumes da juventude do Piauí, de Teresina principalmente, nos anos 60, 70, onde tinham muitos tabus que ela foi quebrando.”
Regina lembra ainda que a jornalista transitou por diferentes áreas ao longo da vida, começando pela escrita e chegando ao colunismo social.
“Ela escrevia, depois passou para a coluna social, então ela tem uma história muito bonita que merece ser contada.”
Do jornal para a televisão
A trajetória de Elvira também ajudou a ampliar os espaços ocupados pelas mulheres na comunicação piauiense.
Pioneira na televisão, ela chegou a viajar semanalmente para São Luís, no Maranhão, onde apresentava um programa ao vivo na TV Difusora. Em Teresina, foi uma das grandes incentivadoras da criação da TV Rádio Clube.
Sua atuação ganhou projeção nacional quando passou a integrar o time de jurados do “Cassino do Chacrinha”, na TV Globo, programa que marcou a televisão brasileira e no qual Elvira se tornou uma presença conhecida nas décadas de 1980 e 1990.
No Piauí, entretanto, sua importância foi além da televisão e do colunismo. Para o jornalista Péricles Mendel, Elvira deixou sua marca em diferentes setores da sociedade.
“Eu não poderia deixar de marcar presença nessa data tão especial dessa mulher que representou muito para o nosso estado, não só no colunismo, mas também no jornalismo e em todas as áreas, já que ela foi também uma grande precursora, quebrou muitos tabus na nossa sociedade.”
O empresário e diretor-presidente do Grupo Cidade Verde, Jesus Filho, também participou da homenagem e destacou a dimensão do legado construído pela jornalista.
“É um privilégio para nós todos podermos fazer essa homenagem para Elvira Raulino, as pessoas se encontrando, ela que tem uma história riquíssima de uma jornalista que marcou muito o seu tempo, deixou uma marca, deixou um legado, deixou um estilo de atuação no nosso meio jornalístico e que nos orgulha a todos.”
Uma trajetória que ultrapassou o jornalismo
A história de Elvira Raulino não se resume ao jornalismo.
Ao longo dos anos, ela também ingressou na política, chegando a ser eleita prefeita de Altos, município onde também construiu parte de sua trajetória. No turismo, criou a primeira Associação de Turismo do Piauí.
Também esteve à frente do Clube Teresa Paz, espaço que reunia estrelas da televisão piauiense.
Essa capacidade de transitar por diferentes ambientes fez de Elvira uma personagem singular. Seu nome esteve presente em acontecimentos sociais, políticos e culturais, enquanto suas colunas acompanhavam festas, personalidades e acontecimentos que ajudaram a registrar diferentes períodos da vida piauiense.
Mais do que registrar a sociedade de seu tempo, Elvira também ajudou a transformá-la.
A jornalista Cláudia Brandão resume essa influência em uma frase: Elvira foi “a mulher que abriu as portas para nós”.
Um legado que atravessa gerações
Se para os colegas Elvira representa pioneirismo e transformação, dentro da família sua história ganha outra dimensão.
A neta Maria Euvira Raulino fala da avó com admiração e também com o sentimento de quem reconhece a responsabilidade de preservar uma história construída ao longo de oito décadas.
“Falar da vovó Elvira é falar de uma mulher que foi sempre à frente do seu tempo, era inspiração para todos e o jornalismo do Piauí com certeza mudou depois dela.”
Para Maria Euvira, carregar o sobrenome da avó também significa manter viva essa trajetória.
“Eu sou só carinho pela vovó, pela minha família e, claro, essa missão de carregar o nome dela e o legado dela, que nunca vai morrer.”
A filha Mara Beatriz resumiu a celebração como uma oportunidade de, antes de tudo, comemorar a vida.
“Acima de tudo é comemorar a vida, a própria vida da minha mãe, que está completando 80 anos, cercada de muitos amigos, de muitos familiares e de uma grande história pelo Piauí, pelas mulheres piauienses, pelo jornalismo piauiense.”
Entre as lembranças familiares, também aparecem histórias que traduzem a personalidade forte da aniversariante. A sobrinha Zeneide Raulino recordou uma frase que costumava ouvir do avô para definir Elvira:
“Ela é um balaio e tu é a tampa.”
A expressão, carregada de humor e intimidade familiar, ajuda a revelar uma característica que atravessa os relatos sobre Elvira: a personalidade inquieta de quem nunca pareceu muito disposta a aceitar limites impostos pelos costumes de seu tempo.
Oito décadas de história
Aos 80 anos, Elvira Raulino chega a uma marca simbólica cercada por pessoas que fizeram parte de sua caminhada e por gerações que conheceram seu trabalho.
Sua trajetória atravessa diferentes momentos do Piauí: os salões das antigas tertúlias, as páginas dos jornais, os estúdios de televisão, os palcos nacionais, o futebol, a política, o turismo e a vida social.
São oito décadas de uma história que começou ainda na adolescência e que, ao longo do caminho, ajudou a ampliar os espaços ocupados por mulheres na sociedade piauiense.
Em entrevista à TV Cidade Verde durante a celebração, Elvira resumiu a noite com poucas palavras, mas suficientes para traduzir a emoção daquele momento:
“Estou feliz, emocionada nessa comemoração.”
E talvez seja justamente essa a síntese de uma noite dedicada não apenas ao aniversário de uma jornalista, mas à celebração de uma mulher que fez da própria vida um registro de seu tempo — e, em muitos momentos, também ajudou a mudar esse tempo.








