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maio 28, 2026 17:29

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Coluna de Opinião

Por Danilo Alves

Kalu Putik e o espelho incômodo da internet

A internet descobriu Kalu Putik e, por alguns dias, não conseguiu falar de outra coisa. Um jovem etíope que transformou pneus, papelão e plástico descartado em peças de alto padrão do mundo da moda, com uma presença estética desconcertante. Viralizou. Milhões de visualizações, comentários em cascata, o universo fashion de olho. A história tinha tudo que o algoritmo ama: beleza improvável, origem humilde, talento que não pediu licença.

Grandes marcas de luxo tentaram contato com Kalu e não obtiveram resposta. Agências, influenciadores, perfis ligados ao mundo da moda, o próprio Instagram tentou alcançá-lo. Nada. Nenhuma entrevista, nenhum posicionamento, nenhuma confirmação. E aí aconteceu o que sempre acontece: o silêncio virou suspeita. Como se uma pessoa vinda de lugar nenhum tivesse obrigação de se explicar para o mundo que acabou de descobri-la.

O mais revelador nessa história não é saber se Kalu é real ou construção. É observar a velocidade com que passamos da adoração para o linchamento. Em poucas horas, o mesmo perfil que era símbolo de resistência virou alvo de investigação coletiva. Curtida como moral. Viralização como julgamento. A internet criou o ídolo e cobrou o preço na sequência.

No fundo, o caso diz mais sobre nós do que sobre ele. Vivemos num tempo faminto por histórias extraordinárias, cansados do ordinário e cada vez mais confusos sobre o que é real. Uma imagem bem composta emociona mais do que qualquer dado. Uma narrativa bonita convence mais do que qualquer verificação.

Se for mentira, confirmamos o óbvio: estamos na era da pós-verdade, onde a emoção entrou no lugar do fato. Se for verdade, e talvez seja, o incômodo fica maior ainda. Porque Kalu não respondeu às marcas. Não deu entrevista. Não correu para o glamour que o glamour correu para ele.

E isso, convenhamos, é o que menos o mundo da moda sabe lidar: alguém que não quer ser comprado.

 

E você, o que acha?

 

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