Teresina - PI
maio 26, 2026 23:57

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LUCIANO HUCK: Bolsa Família x Bets e Familhão

A internet passou os últimos dias reagindo à fala de Luciano Huck sobre o Bolsa Família. E eu fui um desses que reagiu, mas não só pela desinformação. Reagiu em mim algo mais antigo. Aquele reconhecimento amargo de quem já ouviu esse discurso dentro de casa, na fila do mercado, na boca de gente que nunca passou fome mas tem muita certeza sobre como os pobres deveriam se virar.

Nasci e Cresci no Piauí. Fui beneficiário de programas sociais durante boa parte da infância e da adolescência. Sei o que é a diferença entre ter e não ter, não como estatística, mas como memória no corpo. E é exatamente por isso que não consigo passar por esse debate como se fosse só mais uma polêmica de rede social.

O curioso nessa história toda é o seguinte: o mesmo apresentador que critica um programa social reconhecido internacionalmente passa boa parte do tempo vendendo bets, sorteios e promessas de mudança de vida rápida. O “Familhão” é apresentado como esperança para famílias pobres. Mas o que se vê na prática é gente se endividando atrás de uma ilusão, a de enriquecer da noite para o dia. Então fica a pergunta que não quer calar: o que é mais perigoso? Um programa que garante comida, vacina e criança na escola, ou plataformas que lucram em cima do sonho desesperado de quem está sem dinheiro?

O Bolsa Família nunca foi só “dar dinheiro”. O programa tem exigências: vacinação em dia, matrícula e frequência escolar. Mecanismos simples que, na prática, garantem saúde e educação para famílias que o Brasil sempre empurrou para a margem. A ONU reconheceu, a FGV estudou, países desenvolvidos usaram o modelo como referência. A única vez que o programa realmente regrediu foi quando deixou de se chamar Bolsa Família, virou Auxílio Brasil em 2021, e as contrapartidas sociais foram esvaziadas. Enfraqueceram exatamente a parte que ajudava as famílias a construírem uma saída mais digna.

No vídeo de retratação, Huck não voltou atrás. Disse apenas que a fala foi em evento fechado para empresários. Tudo bem adaptar a linguagem ao público, isso é comunicação. Mas convicções, princípios e projetos que se defende em público não mudam de acordo com a plateia. Menos ainda quando a pessoa já se apresentou ao país como possível presidenciável.

A maior resposta aos críticos, no entanto, não está nos dados. Está nos rostos. Nos filhos do Bolsa Família que continuaram estudando, entraram na universidade, viraram professores, médicos, pesquisadores. Gente que só precisava de uma condição mínima para não abandonar a escola ou passar fome.

Eu sou um deles.

E parece que essa é a parte que mais incomoda certa parcela do Brasil: não a pobreza em si, essa até entretém, vira reality show, vira audiência. O que incomoda é quando um pobre recusa o lugar que escolheram pra ele e vai longe demais.

E você, no que acredita?

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