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julho 6, 2026 15:39

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Coluna do professor

Por Danilo Alves

O Brasil forma doutores, mas ainda não sabe aproveitá-los

Nas últimas duas décadas, o Brasil viveu uma transformação silenciosa. Entre 2001 e 2021, o número de doutores formados cresceu 271%, enquanto o de mestres aumentou 210%, segundo o estudo Brasil: Mestres e Doutores 2024, do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE). Nunca o país qualificou tantos pesquisadores.

À primeira vista, a notícia parece motivo de comemoração. Mas basta olhar um pouco além dos diplomas para perceber que o verdadeiro desafio começa justamente depois da formatura.

Um levantamento recente do Research and Innovation Careers Observatory (ReICO), iniciativa da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e da Comissão Europeia, revela um paradoxo brasileiro. Embora 39% dos mestres avancem para o doutorado, proporção quatro vezes superior à média da OCDE, de 9,6%, o país emprega apenas 2,8 doutores para cada mil trabalhadores. A média dos países da OCDE é de 12 doutores por mil trabalhadores. Entre as nações que mais conseguem incorporar pesquisadores ao mercado de trabalho, a distância é ainda mais expressiva. A Suíça contabiliza 33,2 doutores por mil trabalhadores; a Eslovênia, 27,5; e Luxemburgo, 26,6. Em outras palavras, o Brasil consegue formar pesquisadores, mas ainda oferece poucas oportunidades para que eles atuem em funções compatíveis com sua qualificação.

O contraste torna-se ainda mais evidente quando observamos a população. Em 2021, o Brasil titulava cerca de 10 doutores para cada 100 mil habitantes, ocupando apenas a 22ª posição entre 24 países analisados pela OCDE. O Reino Unido registrava cerca de 37 doutores por 100 mil habitantes; a Dinamarca, 35; e a Alemanha, aproximadamente 34. Apesar da expressiva expansão da pós-graduação, o país ainda permanece distante das nações que transformaram ciência, inovação e qualificação em motores do desenvolvimento econômico.

Como consequência, muitos doutores acabam encontrando poucas oportunidades compatíveis com sua formação. Estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostram que cerca de 85% dos doutores empregados no setor privado, fora da área da educação, ocupam funções que sequer exigem o título de doutor, desperdiçando anos de formação altamente especializada. Outros buscam oportunidades no exterior, contribuindo para o saldo negativo de mobilidade científica registrado pelo Brasil.

Esse cenário tem um custo que raramente aparece nas estatísticas econômicas. Cada mestre e cada doutor representam anos de investimento público, infraestrutura universitária, bolsas de pesquisa e dedicação intelectual. Quando esse conhecimento deixa de ser utilizado, o país perde muito mais do que profissionais qualificados. Perde capacidade de inovar, de aumentar sua produtividade e de responder aos grandes desafios contemporâneos.

E esses desafios nunca foram tão urgentes. Mudanças climáticas, segurança alimentar, transição energética, inteligência artificial, transformação digital e novas epidemias exigem justamente aquilo que mestres e doutores são preparados para oferecer: conhecimento especializado, pensamento crítico e capacidade de transformar ciência em soluções para a sociedade.

Existe ainda outro dado que merece reflexão. A participação de mestres e doutores na indústria de transformação brasileira permanece praticamente estagnada em torno de 1,6%. Em países que lideram a inovação, pesquisadores fazem parte do cotidiano das empresas, impulsionando novos produtos, processos e tecnologias. No Brasil, continuam concentrados principalmente nas universidades e no setor público, evidenciando uma desconexão histórica entre produção científica e setor produtivo.

A boa notícia é que o país já demonstrou ser capaz de expandir sua pós-graduação e reduzir desigualdades regionais na formação de pesquisadores. O desafio agora é transformar essa conquista em desenvolvimento. Isso passa por ampliar a integração entre universidades, empresas e governo, fortalecer políticas de inovação, criar ambientes favoráveis ao empreendedorismo científico e compreender que pesquisadores não pertencem apenas às universidades. Eles também impulsionam empresas, criam startups, desenvolvem tecnologias, formulam políticas públicas e ajudam a construir economias mais competitivas.

O Brasil não enfrenta uma crise de formação de talentos. Enfrenta, sobretudo, uma crise de aproveitamento desses talentos. Continuar investindo na qualificação de pesquisadores é indispensável. Mas investir apenas na formação, sem criar um ambiente capaz de absorvê-los, é como construir aeroportos sem pistas de pouso.

Porque um país não se torna desenvolvido apenas quando forma seus cientistas. Torna-se desenvolvido quando consegue fazer com que eles construam o futuro dentro de casa.

 

Fontes: Science Arena e The Conversation

 

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